28 abril 2006

a arquitetura do grito


Há um grito que se engendra na garganta
Que espanta o que atormenta
Que sufoca o que espanta
Que encanta o que afugenta
Que engasga o que encanta
Que acalanta o que ausenta
Que livra o que acorrenta
Que engana o que não quer calar

E nesse vem e vai de esperança
Resta a ânsia tamanha
Na guerra que te trava
Entre o que se entranha
E o que se quer bradar

Livre, o grito, o eco, ou grunhido
Seja de dor, saudade ou desejo incontido
Espalha-se pelo ar e pela terra
Porque por vezes o que berra
Vivia preso esquecido
No lado de dentro que encerra
O que liberta
Alimenta
Acoberta
Orienta
Acalma
Embala
Deita
Nina
Rola
Pára...

Feito um feito perdido
Abortado de um peito
Num coração arrependido
Trancado insuspeito
Por assim ter morrido
No medo de nunca ter sido
O que nunca mais será

18 abril 2006

denso


A densidade do ato
A intensidade do beijo
O intacto anseio
De ter um lampejo
E invadir teu hiato
E vagar sorrateiro
No insensato pensar
Ou persuadir teu segredo
A entregar-se inteiro
No enredo a catarse
Tremor de teus lábios
Arrepio de torpor
Amor e suspense
Sábio equilíbrio
Entre o clamor do delírio
E o mistério do arbítrio
Entre o rumor de teus gestos
E teu olhar: meu martírio

10 abril 2006

perfil de um fim





Perfume doce de jasmim
Perturba a forma de sentir
Performa um beijo de carmim
Pergunta que corre sem partir
Percorre o verso do jardim
Perverso e intenso desistir
Pertence ao meio início ou fim
Permeia o tempo de existir
Perdido em teu sonho folhetim
Percebo que é hora de fugir
Perpétuo instante junto a mim
Perfeito passo e transgredir
Percalço de um não ou de um sim
Perfeito adeus, simples assim