31 março 2006

dos medos inomináveis


A cura do que eu percebo
Não está na espera
Não está na esfera
De qualquer placebo

A dor do desassossego
Não vara a madrugada
Não sara na encruzilhada
Ou ronda teu aconchego

A pena a que me apego
É à custa de meu flagelo
É a busca de meu singelo
Medo do que carrego

Revolto neste roteiro
Devaneio meio solto
Meio forasteiro
Alheio a todo abandono

Absorto feito nevoeiro
Morto feito forasteiro
Inteiro e meio torto
Um jeito de desespero

24 março 2006

se mesmo assim

técnica mista sobre ready-made em plantex
Andromeda, de Gustave Doré, 1869

Se eu chegasse e você partisse
Se eu nascesse e você morresse
Se eu chorasse e você sorrisse
Mesmo que nada mais me restasse

Se você voltasse sem que eu esperasse
Se você abraçasse sem que eu implorasse
Se você me amasse sem que me doesse
Mesmo que eu nada mais fosse

Se eu a tivesse e você me quisesse
Se eu corresse e você me alcançasse
Se eu caísse e você me erguesse
Mesmo que eu não aguentasse

Esperaria a vida inteira
Nem que eu morresse
Na hora que me encontrasse
Na minha visão derradeira

17 março 2006

pérfido amor trágico


Ávido por teus carinhos sôfregos
Hipótese de encontrar-te gélida
Estático entre meus medos áridos
Síntese de meus percalços trôpegos

Cálidos teus desencantos últimos
Súplica de teu sentido prático
Pálido abandono teu olhar mínimo
Cúmplice de meus desejos sórdidos

Entrego-me a teus quereres mínimos
Vítima desta vontade intrépida
Cárcere são teus braços frígidos

Incólume teus olhos confundem-me
Mácula vermelha de alma tétrica
Paradoxo de teu amor letárgico

10 março 2006

insólito instante


Half Minded I - João Figueiredo
para ler ao som de Madredeus

Insólito instante
Perante o vácuo
Que precede a saudade

Despedida contida
Um vago aceno
Na porta da solidão

Trêmulo sorriso
Na face oculta
De um aperto de dor

Me jogo ao mar
De minhas lembranças:
Madredeus em abandono

Na parede do quarto
Ainda ecoa um riso vago
Onda de ternura no meu mar adentro

Concentro a memória
Nas histórias de resgate
E me apego ao cálice de vinho vazio

Na janela a cena acena
Me chama ao imponderável
Fecho a cortina, me deito e choro

Madrugada atenta ao vento
Brisa que vem do sul
Sussurro em vão por uma mão estendida

Os sons da rua
Me encontram nua
Das vestes que me cobrem a alma

Não há procura
Ao entregar-me a ausência
Da essência de teu cheiro no ar

Percorro em sonhos
Desatinos tristonhos
Teu rosto entre nuvens de um avião

Pela manhã o sol
Me encontra opaca
Sem a luz de teu bom dia

Meus olhos perante o brilho
É empecilho para seguir
Quero a ti, quero a todos que deixei partir

03 março 2006

lovely silent


The same song I sang
A second before the big bang
The same speech I have to say
A while after the doomsday
This morning it was my choice
Waking you up without a noise
Or keep you sleeping
Shutting up my voice